Leia isso se você usa ferramentas de gestão

Todo mundo deveria ler isso. Todo mundo usa ferramentas de gestão, desde a mais inocente, como planejamento estratégico e reengenharia, até as mais complexas, como orçamento de base zero e gestão da qualidade total.

O meu objetivo nesse artigo é te mostrar que as ferramentas de gestão que nós administradores aprendemos na faculdade são mais marketing do que realidade.

Na verdade, a teoria institucional explica isso. O que temos de melhor para saber como as coisas funcionam hoje é a ciência, e a ciência é como a Angelina Jolie – tem lábios carnudos, 50kgs bem distribuídos, e é muito rica e famosa.

Entretanto, nem a Angelina Jolie nem a ciência são perfeitas. Enquanto a primeira se divorciou e lutou muito contra o vício em cocaína e heroína, a segunda negligencia muitas coisas qualitativa e quantitativamente.

Veja, há algum tempo atrás, esquemas de pirâmide eram um sucesso e todo mundo comprou a ideia. Quem comprou, ficou rico. Quem demorou mais pra comprar, ficou pobre. O mesmo acontece com a Gestão por Objetivos, do Peter Drucker, que só olha pro umbigo da empresa.

No fundo, todas as ferramentas de gestão tem seu aspecto de moda. E mais no fundo ainda, todas falam a mesma coisa: precisamos olhar o ambiente, ver o que está acontecendo, e ter uma ideia bacana pra colocar aqui dentro.

A gestão continua sendo o velho planejar, organizar, dirigir, e controlar em forma de ação, mas a cada primavera que passa, tem um jeito novo e científico de fazer isso. E todos eles parecem, agora sim, serem à prova de qualquer falha.

Dessa vez vai dar certo, os gestores dizem.

Universidades e Empresas

Eu adoro estudar universidades. Um professor meu no mestrado me disse uma vez que eu era um transgressor. E sou mesmo. A minha intenção ao estudar administração é ser um whistleblower. Isto é, aquele cara que vê alguma coisa errada e mete a boca no trombone.

E eu tô vendo muita coisa errada, bicho. E por isso as universidades e demais organizações complexas me fascinam.

Veja, nas universidades, os gestores raramente são formados em administração. Se você for numa faculdade de medicina, o gestor provavelmente será um médico. O mesmo nas engenharias, na veterinária, e na arquitetura.

Pra que precisamos de gestores mesmo?

Mas eu fico embasbacado com o que acontece. Tipo um turista que senta no alto do ônibus de turismo e fica tirando fotos daquilo que vê pela frente.

Porque as universidades são instituições extremamente respeitadas no mundo inteiro, e mesmo assim, sempre tem um que fala que “precisamos que a universidade vire um negócio”.

Afinal, é claro que as universidades precisam ter lucro. Não podem gastar mais do que ganham, e tem que prestar contas para a sociedade.

Vamos enfiar mais alunos nas salas de aula, vamos estabelecer KPIs e metas para os professores, vamos estabelecer metas de artigos publicados e patentes para os pesquisadores, e ainda vamos tirar o foco do longo prazo e ganhar grana no curto prazo.

Afinal, é isso que as melhores empresas do mundo fazem. Então, as universidades tem que ser mais parecidas com empresas, não é mesmo?

O problema é que das 500 empresas mais famosas e ricas do mundo, segundo a revista Fortune, só 20% sobreviveram aos últimos 50 anos.

E eu digo mais, ache uma universidade – universidade mesmo, não qualquer faculdade – que faliu nos últimos 50 anos. Eu tenho certeza ABSOLUTA que você vai ter muita dificuldade em achar.

Então ao invés de perguntar “porque as universidades não podem ser mais parecidas com empresas”, deveríamos nos perguntar “porque as empresas não podem ser mais parecidas com universidades”, não é mesmo?

A parte boa das modas de gestão

Eu mordo, mas eu assopro depois. Depois do tapa vem o afago.

Tenho que assumir que existem algumas modas de gestão que tem bons resultados SIM, seja para empresas, seja para universidades.

Pensar no planejamento estratégico como um plano amplo para atingir a missão de qualquer organização tem o poder de fazer as pessoas dentro da organização pensarem no que estão fazendo.

Novas políticas tem o poder de mudar o jeito que as coisas são feitas, incorporar boas práticas nas organizações, e melhorar o pensamento coletivo sobre as coisas.

Essas modas são importantes quando elas dotam os gestores de novos enquadramentos para pensar sobre um mesmo assunto. E é aí que a mudança acontece, geralmente para o bem.

O problema é quando as pessoas pensam em Balanced Scorecard como o santo graal do sucesso e do dinheiro, e pegam uma fórmula e tentam aplicar em todas as empresas da mesma maneira – como alguns consultores estão cansados de fazer.

O problema começa quando as modas de gestão se transformam em “fórmulas de gestão” e os macacos tentam enfiar a elipse no buraco que passaria o quadrado.

Ciência e Horóscopo

Eu adotei como slogan para a minha “marca pessoal” que o que eu falo é ciência, não palpite. Mas é a terceira vez que eu tô destruindo esse conceito. E tudo depende do que você encara como ciência.

Ciência pra alguns é aquilo que administradores fazem quando implementam novas ferramentas de gestão. Eu vou ilustrar a cena pra você.

São 14h, você tá trabalhando, e de repente, entram pela porta os consultores engravatados, com livros de negócios embaixo do braço. Atrás deles, seguem os principais responsáveis pela empresa em questão. Todo mundo olha a porta se abrindo e todos os olhos seguem eles indo até a sala de reuniões em fila indiana.

A postura deles é que eles definirão o seu futuro. O futuro da empresa. O futuro do Brasil. Eles são xamãs, pessoas intocáveis, impossíveis, e muito ricas. Eles devem saber o que estão fazendo.

Balela. Eles não fazem a mínima ideia do que tão fazendo. O trabalho da maioria dos consultores nas empresas é como o trabalho do médium no centro espírita – se a gente acreditar, funciona.

A formação e imagem deles passa credibilidade. Eles já trabalharam em grandes empresas, e tem uma foto velha com o Donald Trump.

E eles dizem: “essas ferramentas, se usadas de maneira sábia, podem trazem um retorno de 25% sobre o seu investimento de tempo e pessoal”. E eles já falam que tem que ser usada de maneira sábia pra colocar a culpa nos outros se não funcionar.

E além disso, eles largam o discurso do omelete na tua cara. Conhece?

Para fazer um omelete, precisamos quebrar os ovos.

Nesse discurso, eles justificam os empecilhos com mudança, com os gastos e despesas, com os honorários deles, etc, etc. Fácil assim, entendemos as metáforas muito melhor do que os dados.

Esse xamanismo, essa religião, não é ciência bicho. Simplesmente porque o trabalho deles é colocar o planejamento estratégico, ou o orçamento em base zero para funcionar.

E já sabemos que nem planejamento estratégico, nem o orçamento em base zero funciona do jeito que eles querem, muito menos são ciência. Mas como é melhor que nada, trazem resultados.

Qual é a solução, então?

A solução é parar de acreditar em óleo de cobra, em consultores xamãs, em ferramentas prontas e prontas para aplicar. Não dá, cara.

Nada pode vir pronto para a sua empresa, principalmente quando você tem um público diferente do que as outras, pessoas diferentes das outras, e costumes diferentes das outras.

A solução, mais uma vez, tá mais no pensar e agir, ao invés de planejar, organizar, dirigir, e controlar conforme o kuduro da moda.

Mas pensar dói, e agir em incerteza dói mais ainda. Mas eu te adianto que o simples fato de planejar não diminui a incerteza, cara. Ninguém sabe quem vai ganhar as eleições.

Você tem que ser antifrágil e crescer com as incertezas. A incerteza tem que ser o teu combustível, porque se tem uma coisa mais certa que a morte, é que voce não faz a mínima ideia do que vai acontecer amanhã.

Isso sim é ciência. Ciência é estar ciente de que ninguém sabe o que vai acontecer nem no curto, muito menos no longo prazo, e tomar ações conscientes que sejam condizentes com o estado atual das coisas.

Então, aproveite isso e aja para mudar o teu amanhã. Tem uma galera que recebeu um email meu hoje sobre desenvolvimento pessoal. É mais uma continuação do artigo de ontem.

Eu sempre converso com eles, e a gente se engaja em conversas significativas, que servem como mini sessões de mentoria. Eles me pedem conselhos, eu respondo, e espero muito que eu contribua com a vida deles.

Todo esse projeto aqui é pra melhorar a vida das pessoas, e a vida das pessoas passa por organizações e gestão, e por isso eu falo de desenvolvimento humano e organizacional.

Eu também tenho meu livro “O mínimo que você deveria saber sobre estratégia”, que esses caras receberam de graça.

Você devia dar uma olhada.

Clique Aqui para fazer parte!

REFERÊNCIAS

Birnbaum, R., & Snowdon, K. (2003). Management fads in higher education. The Canadian Journal of Higher Education33(2

Drucker, P. F. (1999). Desafios gerenciais para o século XXI. São Paulo: Pioneira

Locke, R. R., & Spender, J. C. (2011). Confronting managerialism: How the business elite and their schools threw our lives out of balance. Zed Books Ltd..

Photo by Malte Wingen on Unsplash

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