O que é estratégia? De uma vez por todas!

Eu lembro quando eu tava na graduação, cursando administração, e de repente surgiu na minha frente uma disciplina chamada “administração estratégica”.

Que porra é essa? O que é administração estratégica? Eu não sei nem o que é estratégia?

“Estratégia” tem muitos significados pra todo mundo. Pra alguns, estratégia é aquilo que os generais japoneses faziam. Para outros, é um estilo de jogo de computador. Para mais alguns, é o método usado para alcançar algum objetivo.

Nesse artigo, eu vou te mostrar de uma vez por todas os três modelos mentais de estratégia. Isso é, as três maneiras pelas quais as pessoas PENSAM em estratégia em organizações.

E no final, vou te mostrar como pegar esses três modelos e montar uma estratégia do caralho pra tua organização.

Vem comigo!

Estratégia Linear

Essa é a mais velha, mais conhecida, e mais ineficaz de todas, por coincidência.

A estratégia linear é excessivamente focada em planejamento, planejamento, planejamento e mais planejamento, como se o futuro estivesse no seu bolso.

Vamos partir do princípio de que o planejamento seja válido por 1 ano. Esse ano, o planejamento da galera já estaria fodido, porque no começo do ano, nunca esperaríamos que o dólar passaria de 4 reais, nem que existiria a greve dos caminhoneiros, nem que o Lula estaria em primeiro nas pesquisas mesmo estando preso.

Estratégias lineares são aquelas que enfatizam o diretor ou CEO como o santo graal da estratégia. O ambiente é geralmente só um ruído pras ações internas da organização.

As medidas principais para saber se essa estratégia deu certo são lucro e produtividade. Se a empresa teve mais lucro, ou produziu mais, parabéns para os planejadores e CEOs.

Para que uma estratégia linear dê certo, por meio do planejamento, implementação, e formulação da estratégia, a organização deve ser o que a literatura chama de “tightly coupled”, ou seja, fortemente articulada.

Organizações fortemente articuladas são aquelas que não tem muita diferenciação em termos de profissões. Uma fábrica de bolachas, por exemplo, pode ser uma organização fortemente articulada.

Isso porque imediatamente acima do operador da máquina está o supervisor, acima do supervisor vem o coordenador, acima do coordenador vem o gerente, e acima do gerente vem o dono. E todos que estão um andar acima na hierarquia poderiam fazer o trabalho daqueles que estão abaixo.

Compare isso com uma universidade. Quem é o chefe do professor? Quem manda no coordenador de curso? Será que um coordenador de curso poderia ser o pró-reitor? E será que o pró-reitor da escola de negócios poderia ser pró-reitor da escola de medicina?

Universidades são exemplos de organizações frouxamente articuladas, e o planejamento estratégico, ou estratégias lineares, não dão muito certo nelas.

As estratégias lineares ignoravam os fatores ambientais para enfatizar as decisões, ações e planos da organização. Elas enfatizavam os meios e fins para atingir objetivos, ao invés de olharem para a adaptação ao ambiente, por exemplo.

Estratégia Adaptativa

É claro que ignorar o ambiente que está ao redor das organizações não é uma boa ideia. Então, outra escola de pensamento estratégico surgiu com a Estratégia Adaptativa.

Como o nome já diz, a estratégia adaptativa busca moldar as forças e fraquezas da organização às oportunidades e ameaças do ambiente (lembra da matriz SWOT?)

Ou seja, agora os estrategistas precisam continuamente monitorar o ambiente para tomar suas decisões.

Mas isso não significa uma falta de planejamento estratégico. Existe um planejamento, mas muito mais “solto”, “flexível” do que da estratégia linear. Até porque a organização não se importa muito com os fins, mas enfatiza muito os meios.

Vamos a um exemplo de como atingir fins sem se preocupar com eles. Se você começa a ler, ler, ler, ler, ler, ler, e ler mais ainda, é óbvio que você vai ficar mais inteligente e conseguir empregos melhores.

O meio é que leva ao fim, não o fim que dita qual será o meio.

Para fazer as coisas, essas organizações decidem quais os meios que precisam para se adaptar melhor ao ambiente, partindo do princípio de que o fim para todos é ter uma boa adaptação com o ambiente (entra a matriz SWOT de novo)

Em resumo, enquanto a estratégia linear acredita que a organização precisa “lidar” com o ambiente, a estratégia adaptativa diz que a organização precisa “mudar” com o ambiente.

Estratégia Interpretativa

Essa é a minha preferida, e eu vou te explicar porque.

Veja, as organizações são coisas socialmente construídas. Isso significa que nós, como sociedade, decidimos que a melhor forma de fazer as coisas é reunindo pessoas por livre e espontânea vontade e em comum acordo para fazer alguma coisa, certo?

O benefício pra galera é o benefício pra empresa. Se a empresa tem lucro, a galera tem lucro também. Simples assim.

Só que esse coletivo de pessoas, pela convivência, cria uma cultura comum. E também envolve as suas famílias e amigos, e outras pessoas na empresa. Os tais “stakeholders”.

Então, a estratégia nada mais é do que uma negociação que dura pra sempre. É a solução de problemas dentro e fora da organização que acontece todo dia. A estratégia é o jeito que uma organização, representada por seus funcionários, tem de negociar.

E para negociar, essas organizações usam símbolos e significados. 

Como assim?

Assim: o planejamento estratégico, por exemplo, é um símbolo de que a organização se importa com o seu futuro, e tem alguns objetivos para cumprir. Um consultor de treinamento dentro da empresa é um símbolo de que a organização se preocupa com seus funcionários.

E finalmente, o objetivo da empresa não é lucro (por mais bizarro que isso possa parecer). A estratégia interpretativa parte do pressuposto de que lucro é a consequência de uma coisa chamada legitimidade. 

Legitimidade pode ser definida, brevemente, é claro, como a “aceitação” do público. Uma empresa com alta legitimidade, a Nike ou a Apple, por exemplo, podem fazer o que quiserem no ano que vem, que ainda terão lucro.

Agora empresas com baixa legitimidade, como qualquer uma que acabou de abrir as portas nessa semana, provavelmente vai ter que adotar os símbolos e significados daquelas que já estão no mercado.

Isso significa que a estratégia não é uma coisa que vem dos diretores para o resto da empresa, mas sim que acontece na empresa como um todo. Até porque poucos diretores tem contato com o ambiente.

Quem importa, nas estratégias interpretativas, é o cara que tá ali, falando com o cliente. 

A Moral da História

Enquanto a estratégia linear se preocupa apenas com o planejamento para atingir um fim, a estratégia adaptativa se preocupa em estar alinhada com o ambiente em que ela se encontra.

A estratégia interpretativa volta a se preocupar com o “lidar” com o  ambiente, mas de uma maneira diferente. Não com planejamentos e demais ferramentas instrumentais, ou seja, que servem para lidar com o ambiente. Mas sim com a comunicação e negociações com o ambiente.

Chaffee diz que esses três modelos da estratégia são mais ou menos como se:

um geólogo, um meteorologista, e um poeta fossem construir um modelo do Grand Canyon

Mas como a gente ordena tudo isso em uma coisa só?

Boulding coloca esses três modelos da estratégia em um grande sistema com três fases.

Primeiro, a fase mecânica, que enfatiza os mecanismos de controle, que tem muito a ver com o modelo linear. É a primeira fase para a construção de organizações, com foco em acabar listas de coisas pra fazer e cumprir a descrição de cargos.

Essa primeira fase mecânica é como se todos os funcionários de uma empresa respondessem a um comando do chefe. O chefe quer lucrar, então todos os funcionários da empresa seguem os caminhos que ele fala que devem ser seguidos para lucrar.

Segundo, vem a fase biológica, com um sistema de imagem. Agora a organização consegue ver o seu ambiente, porque a fundação, a base está feita com o sistema mecânico.

Essa imagem do ambiente é estática, como se fosse uma fotografia do ambiente tirada pelo gestor, e mostrada pros funcionários enquanto o gestor diz “ó, é assim que temos que ser”. 

Isso significa que a organização vai se adaptar ao ambiente que ela vê. Então se o starbucks começa a vender rosquinhas, você pode ter certeza de que os gestores dos cafés vão começar a vender rosquinhas também.

Terceiro, vem a fase cultural, que enfatiza a transcendência. Ninguém sabe muito bem o que é isso, porque a gente realmente não tem consciência o suficiente pra saber. 

Mas a gente tem consciência pra fazer interpretações do que acontece lá fora. Ou seja, nenhum funcionário ou empresário pode se dar ao luxo de não saber o que o cliente quer dele, e como que o cliente vê a empresa dele. 

Por isso algumas empresas que vendem para o consumidor final usam memes como ferramentas de marketing, ao invés de falar das características dos seus produtos e serviços.

Elas sabem a cultura na qual elas estão imersas. 

Elas então pegam símbolos e significados dessa cultura, e adaptam para a empresa.

Os três modelos da estratégia acontecem todos no ciclo de vida de uma empresa. O planejamento estratégico é importante, assim como a manipulação de símbolos culturais, como memes.

Se eu pudesse gravar uma mensagem na sua cabeça com esse artigo, ela seria:

Estratégia é linear, adaptativa, e interpretativa. Ou seja, ao mesmo tempo que você precisa fazer um planejamento estratégico, não pode ignorar o ambiente e tudo o que você pensa sobre ele, e tudo que ele pensa sobre você, e tudo que acontece ao seu redor. Os símbolos que você usa para se comunicar são bem mais importantes do que o seu planejamento estratégico.

Quer uma prova? Sabe qual artigo meu fez mais barulho nas redes sociais, e me gerou mais inscritos na minha lista de emails e mais seguidores no Facebook?

Um meme. 

Eu já escrevi mais de 80.000 palavras aqui, em mais de 70 artigos, e um meme foi o que mais gerou retorno. 

Tenho que fazer mais memes.

Ah, você viu que eu falei de uma lista de emails, né?

Então, tem uma galera aí que me dá os emails deles pra gente conversar mais de perto. Geralmente, eu falo sobre desenvolvimento humano e desenvolvimento pessoal com eles, e a gente discute sobre as pautas.

Por exemplo, na última semana, eu mandei um email cujo assunto era “a culpa é minha e eu jogo em quem eu quiser”. Gerou bastante polêmica, algumas pessoas não gostaram e vieram me xingar, mas faz parte. 

Eu prefiro falar a verdade e gerar discussão do que agradar todo mundo. Você já percebeu isso.

Se você chegou até aqui, eu acho massa que você tenha essa outra visão sobre a vida. Uma visão sem papas na língua ou mentirinhas motivacionais bonitas. Aqui tem ciência, não palpite.

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REFERÊNCIAS

Chaffee, E. E. (1985). Three models of strategy. Academy of management review10(1), 89-98

Boulding, K. E. General systems theory – The skeleton of science. Management Science, 1956, 2, 197-208

Bolman, L. G., & Deal, T. E. (2017). Reframing organizations: Artistry, choice, and leadership. John Wiley & Sons

Photo by Felix Mittermeier on Unsplash

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