Onde você estuda? Estratificação da Educação Superior no Brasil

No post passado sobre organizações, falei que você deveria estudar, fazer um mestrado, um doutorado, uma pós, enfim. Falei que você nunca deveria parar de estudar.

Entretanto, onde você escolhe estudar também é um ponto a ser considerado. A educação superior, nos últimos anos, por causa da globalização, se tornou um sistema de alta participação, isto é, quase universal.

Hoje é muito fácil fazer uma faculdade. A mensalidade mais barata é de 200ão por mês, e ainda dá pra chorar. Faz de casa mesmo, sem grilos. E eu acho isso maravilhoso, cara. É fantástico pensar que milhares de pessoas hoje podem se capacitar de casa. Isso é do caralho.

Mas pesquisas mostram que a expansão da educação superior não diminuiu a inequalidade do sistema, que sempre foi elitista. Isso acontece por algumas razões que eu vou falar aqui.

Primeiro, Raftery e Hout (1993) dizem que enquanto os pobres se limitam a cursos técnicos e à graduação, os ricos continuam a sua educação. Eu acho que isso é uma questão de pressão familiar, da comunidade, e do mercado (lógicas institucionais), uma vez que ambos tem a oportunidade de continuar. A pós no Brasil, hoje, também pode ser feita à distância, e também é barata.

Lucas (2001) fala que os ricos estão refugiados nas universidades de elite, mais seletivas, prestigiosas e caras. Isso não se aplica aqui, porque temos cotas nas universidades públicas, e prouni e fies para as privadas.

A expansão do ensino superior também provoca estratificação estrutural (hein?). Assim, a expansão alimenta a diferenciação das universidades. Por exemplo, a universidade de elite fica cada vez mais de elite, e a universidade acessível fica cada vez mais acessível. Entendeu?

Mas isso no Brasil, mais uma vez, não acontece. Pode acontecer com Harvard, Stanford, e outras nos Estados Unidos. Mas aqui, o pobre está nas religiosas, nas federais, e nas privadas. Claro, o rico não está nas privadas, mas isso é porque ele pode pagar as outras.

Davies e Zarifa (2012) entendem que isso é um problema. Que na verdade, a educação superior se tornou sim universal. Mas que nós temos dois tipos de educação superior. Primeiro, aquela de elite, moldadora de caráter, formadora para a vida, focada em artes liberais. Segundo, aquela que busca treinar o aluno pro mercado, ensina técnicas e métodos, e quase dá o diploma. Nem dá pra colocar as duas no mesmo patamar. Isso é estratificação estrutural.

De um jeito ou de outro, temos evolução. Poderia ser melhor? Claro. Será melhor? Com certeza, e em pouco tempo. Mas até lá, é isso que tem pra janta.

REFERENCIAS

Raftery, A. E., & Hout, M. (1993). Maximally maintained inequality: Expansion, reform and opportunity in Irish education, 1921–75. Sociology of Education, 66(1), 41–62.

Lucas, S. R. (2001). Effectively maintained inequality: Education transitions, track mobility, and social back- ground effects. American Journal of Sociology, 106(6), 1642–1690

Davies, S., & Zarifa, D. (2012). The stratification of universities: Structural inequality in Canada and the United States. Research in Social Stratification and Mobility30(2), 143-158

Photo by Vasily Koloda on Unsplash

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